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Salão do Móvel de Milão 2026

Salão do Móvel de Milão 2026: por que a matéria se tornou o centro da arquitetura contemporânea

O Salão do Móvel de Milão sempre funcionou como um termômetro global do design. Mais do que apresentar lançamentos, o evento revela mudanças estruturais na forma como arquitetos, designers e indústrias pensam o espaço.

Na edição de 2026, esse movimento se consolida com clareza. Sob o tema “A Matter of Salone”, o evento desloca o foco da forma para algo mais essencial: a matéria.

Não se trata apenas de estética ou inovação tecnológica. O que está em jogo é uma transformação mais profunda — uma revisão do papel dos materiais dentro da arquitetura contemporânea.

Imagem original do site https://www.salonemilano.it/en/articles/matter-salone-new-salone-communication-campaign \

O que significa “a matéria como protagonista” no design

Tradicionalmente, os materiais eram tratados como suporte técnico — elementos que viabilizam uma ideia formal. No cenário atual, essa lógica se inverte.

A matéria passa a ser entendida como:

  • ponto de partida do projeto
  • elemento expressivo da arquitetura
  • veículo de identidade cultural
  • componente estratégico de sustentabilidade

Essa mudança impacta diretamente a forma de projetar. O arquiteto deixa de escolher o material ao final do processo e passa a construir o projeto a partir dele.

Esse movimento também responde a uma demanda contemporânea por autenticidade. Em um cenário saturado de superfícies artificiais e padronizadas, cresce o interesse por materiais que carregam textura, variação e origem. 

 

A relação entre matéria, cultura e território

Um dos aspectos mais relevantes observados em Milão é a valorização da origem dos materiais. Não apenas de onde vêm, mas o que representam.

Materiais naturais passam a ser utilizados não apenas por suas propriedades técnicas, mas por sua capacidade de traduzir território, história e cultura.

Isso é especialmente evidente quando falamos de materiais como a argila. Um material que, por essência, incorpora características singulares que ampliam a experiência arquitetônica:

  • variação de tonalidade
  • irregularidade de superfície
  • resposta ao processo manual
  • conexão direta com o solo de origem

Essa singularidade se torna um ativo no projeto arquitetônico.

Sustentabilidade além do discurso: o que muda na prática

A sustentabilidade continua sendo um dos principais pilares do Salão do Móvel de Milão, mas com uma abordagem mais madura e menos superficial.

Em vez de se limitar a narrativas, o foco está nos processos produtivos e no ciclo de vida dos materiais.

Entre os principais pontos discutidos:

  • redução de impacto na extração de matéria-prima
  • mais eficientes e mais sustentáveis, usando energia renovável
  • reutilização de resíduos industriais
  • durabilidade e possibilidade de reaplicação

Esse cenário reforça a importância da chamada economia circular, que ganha protagonismo dentro do design contemporâneo.

ecoLogicStudio, Photo.Synth.Etica , uma instalação de fachada que incorpora sistemas de microalgas para captura de CO₂, experimentando a relação entre arquitetura, meio ambiente e biotecnologia, cortesia de ecoLogicStudio.

Economia circular no design: do conceito à aplicação

A economia circular propõe uma ruptura com o modelo linear de produção. Em vez de produzir, consumir e descartar, o objetivo passa a ser manter os materiais em uso pelo maior tempo possível.

Na prática, isso se traduz em estratégias como:

  • reaproveitamento de resíduos como matéria-prima
  • desenvolvimento de produtos desmontáveis
  • reutilização de materiais em novos projetos
  • redução de desperdício ao longo da cadeia produtiva

Esse modelo não apenas reduz impacto ambiental, mas também agrega valor ao produto final — que passa a carregar uma narrativa mais relevante.

Dorte Mandrup, Icefjord Centre, Ilulissat, Groenlândia, 2021, ph. Adam Mork

Arquitetura sustentável: desempenho, não apenas estética

Outro ponto importante observado nas discussões do Salone é a evolução do conceito de arquitetura sustentável.

Hoje, não basta que um material seja “ecológico”. Ele precisa contribuir ativamente para o desempenho do espaço.

Isso inclui:

  • controle térmico
  • ventilação natural
  • drenagem urbana
  • redução de ilhas de calor

Projetos passam a incorporar soluções que dialogam com o ambiente, reduzindo a dependência de sistemas artificiais.

Um exemplo relevante é o uso de superfícies drenantes em áreas externas, que permitem a absorção da água da chuva e reduzem o impacto urbano — além de possibilitar manutenção e reaproveitamento sem geração de resíduos.

O papel da experimentação: o que a Alcova revela sobre o futuro

Enquanto o Salone apresenta o design consolidado, espaços como a Alcova mostram o que ainda está em formação.

A plataforma, conhecida por ocupar edifícios históricos e industriais durante a Semana de Design de Milão, reúne designers que exploram novas relações com a matéria.

O que se observa ali é um retorno ao processo autoral:

  • criação de moldes próprios
  • experimentação com formas não convencionais
  • valorização do erro como parte do resultado
  • produção em escala reduzida

Esse ambiente funciona como um laboratório do design contemporâneo, antecipando movimentos que, posteriormente, chegam ao mercado.

Processo criativo: o valor do que não é visível

Outro aspecto que ganha força é a valorização do processo criativo.

Mais do que o resultado final, interessa entender:

  • como a peça foi desenvolvida
  • quais técnicas foram utilizadas
  • qual a relação do designer com o material

Em muitos casos, o processo acontece em ateliês independentes, onde o designer acompanha todas as etapas — do desenho inicial à finalização da peça.

Esse controle sobre o processo reforça a autenticidade do produto e cria uma conexão mais direta entre criação e matéria.

Design centrado no humano: uma evolução do conceito

O design centrado no humano continua sendo uma diretriz importante, mas com uma abordagem mais sensorial.

Não se trata apenas de funcionalidade.

O foco passa a ser a experiência do usuário no espaço, considerando fatores como:

  • conforto térmico
  • qualidade da luz
  • textura das superfícies
  • percepção tátil e visual

Nesse contexto, a escolha do material tem impacto direto na forma como o espaço é percebido e vivido.

O que o Salão do Móvel de Milão 2026 sinaliza para a arquitetura

A edição de 2026 não apresenta apenas tendências — ela aponta uma mudança de mentalidade.

Entre os principais direcionamentos:

  • maior protagonismo dos materiais naturais
  • valorização de processos produtivos conscientes
  • integração entre estética e desempenho técnico
  • crescimento da economia circular no design
  • fortalecimento de uma arquitetura mais sensorial e conectada ao território

Essa transformação não é pontual. Ela reflete uma necessidade real de repensar a forma como construímos e habitamos os espaços.

Conclusão: a matéria como linguagem da nova arquitetura

O que Milão evidencia em 2026 é um deslocamento importante.

A arquitetura deixa de ser definida apenas por formas e passa a ser construída a partir da matéria.

Uma matéria que:

  • carrega história
  • responde ao ambiente
  • participa do desempenho do espaço
  • e estabelece uma conexão mais direta com quem o habita

Mais do que uma tendência, trata-se de um novo olhar sobre o projeto arquitetônico — onde o material não é apenas escolha, mas fundamento.

 

Fontes: 

Salone del Mobile Milano. A Matter of Salone e artigos oficiais sobre design e sustentabilidade.

Alcova Milano. Plataforma de design experimental durante a Milan Design Week.

LOOPE Furniture. Estudos sobre economia circular aplicada ao design.

Pani Jurek. Processos autorais na cerâmica contemporânea. 

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